Trajetória da criação do Visagismo Philip Hallawell

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Sempre que algo novo nos é apresentado, tentamos compará-lo com o que conhecemos. Mas, se for realmente novo e inédito, não terá relação com o já conhecido. Nesses casos, tentar encontrar comparações dificulta a compreensão. É isso o que geralmente acontece quando se ouve falar, pela primeira vez, do Visagismo Philip Hallawel.

Defino o Visagismo como a Arte de criar uma imagem pessoal. Engloba todas as áreas relacionadas à beleza e à imagem pessoal. Esse conceito foi desenvolvido a partir do princípio que a imagem de uma pessoa estabelece uma identidade visual, que tem de estar em sintonia com o senso de identidade da pessoa. A criação de uma imagem pessoal, portanto, envolve muito mais do que considerações estéticas e habilidades artesanais, necessárias para executar um trabalho.
Estabeleci esse conceito e criei um método para sua aplicação, baseado em conhecimentos adquiridos ao longo de 40 anos, como artista plástico, arte educador e escritor, pesquisando a linguagem visual, a percepção visual e processos de cognição. Não fui para Europa fazer nenhum curso de Visagismo, então não trouxe esse conceito da Europa! Além disso, não havia quase nenhum material publicado em que pude me basear.

Conheci o termo Visagismo em 2001, quando fui convidado por Vera Lucia Marques e Hélio Sassaki, do Centro Tecnológico de Beleza no Senac SP, para criar uma apostila de um curso de Visagismo. Conheceram meu trabalho sobre linguagem visual pela série da TV Cultura À Mão Livre – A Linguagem do Desenho, que criei e apresentei de 1994 a 2000. A ideia era mostrar como os fundamentos da linguagem visual se aplicam à criação de uma imagem pessoal; os princípios de harmonia, proporção, estética e composição; o que as linhas, formas e cores expressam; como funcionam a luz e a cor e como utilizar esses elementos para criar volume e planos numa imagem. Além disso, o projeto incluía a análise dos formatos e feições do rosto e da cor da pele e o ensino do desenho do rosto. Tudo isso era inédito na formação de cabeleireiros e maquiadores. Essas informações nunca foram disponibilizadas em nenhum curso da área da beleza, em nenhuma parte do mundo.

Antes de iniciar o trabalho, fiz uma extensa pesquisa na internet sobre Visagismo. Não tinha familiaridade com a área da beleza, então também quis conhecer como os profissionais trabalhavam, quais eram seus maiores desafios e como foram formados profissionalmente.

Para minha surpresa, encontrei muito pouco sobre Visagismo. Não existia nenhum livro sobre o tema e poucos artigos. Fernand Aubry, criador do termo, que vem da palavra visage, que significa rosto, em francês, não deixou nada publicado, então não se sabe o que pretendia, nem como trabalhava. Não deixou nenhum método para sua aplicação e só existem algumas fotografias de trabalhos seus, que indicam que ele buscava criar imagens despadronizadas, talvez com a intenção de atender clientes que não se consideravam parte da burguesia que a moda da época representava.

O conceito da palavra Visagismo nunca foi definido. Fiquei sabendo que na França havia um Instituto de Visagismo que, infelizmente, não revela muito sobre os métodos utilizados nos seus cursos de cinco módulos. Pelo que pude ver, o método parece baseado numa análise do comportamento do cliente, portanto no seu estado emocional, mas não inclui conhecimentos da linguagem visual, nem diz no que é fundamentado ou qual é o objetivo.

Há, também, academias na Europa e na Argentina que oferecem cursos, mas tratam o Visagismo como se fosse meramente uma técnica para adaptar o corte ao formato do rosto, seguindo regras, e harmonizar as cores da coloração e da maquiagem à cor da pele. O que se aprende pode proporcionar algum ganho estético, mas, geralmente, os resultados são altamente padronizados e não há uma verdadeira personalização.

Há muita informação útil disponível sobre a cor da pele, inclusive vários livros sobre o assunto, embora muitos títulos já estejam fora dos catálogos das editoras.
Observando como os profissionais trabalhavam, estranhei não terem nenhuma maneira objetiva de definir o que seus clientes desejavam expressar através de suas imagens.

Os cabeleireiros dependiam, basicamente, de sua intuição e percepção, ao observar o comportamento dos clientes, para sugerir o corte, a coloração ou o penteado. Poucos tentavam conduzir uma consultoria para descobrir o que o cliente queria. Os clientes, por sua vez, se limitavam a dizer como queriam o corte e a cor.

A formação do profissional de beleza era, e continua a ser, profissionalizante. Ensinam-se técnicas de como fazer um corte, mas não como criar um corte. O aluno também aprende a fazer a coloração e penteados e, nos melhores cursos, cosmetologia e tricologia. Na maquiagem o ensino também é profissionalizante e técnico. O resultado é que se formam artesãos que focam na qualidade técnica e no efeito estético de seu trabalho, que será sempre apoiado em padrões. É isso que ocorre na grande maioria dos salões, não só no Brasil, mas também no exterior.

Quando se tem consciência que a imagem de uma pessoa define sua identidade, fica evidente que há necessidade de personalizar a criação da imagem pessoal e que falta aos profissionais meios para fazer isso. A linguagem visual não é ensinada em nenhum curso e, sem esse conhecimento, não há como analisar uma imagem ou trabalhar a partir de uma intenção abstrata. Imagine, por exemplo, se uma cliente fosse dizer ao seu cabeleireiro que deseja um corte que passa credibilidade, criatividade, determinação e força, mas que também valorize sua feminilidade. É provável que a grande maioria dos profissionais no mundo inteiro ficasse perdida diante de uma situação semelhante.

Por outro lado, são poucas as pessoas que saberiam definir com tanta clareza o que desejam expressar através de sua imagem, então o profissional, antes de começar o trabalho, precisa dispor de um método para ajudar seu cliente a refletir sobre si próprio e definir a intenção.

O profissional de beleza, no entanto, só vai conseguir atender seu cliente adequadamente se souber fazer isso e aí ele pode se considerar um artista. Cada trabalho é uma criação customizada, construída pensando em compor esteticamente um conjunto de efeitos que traduzem a intenção do cliente, que ele ajudou a definir.

Percebi, portanto, que, primeiro, seria necessário definir o Visagismo. Por ser um termo que termina em "ismo", só pode referir-se a um conceito, não a uma técnica.

Vinculei o Visagismo à ideia que a imagem pessoal estabelece uma identidade, especialmente no rosto, um tópico largamente estudado e pesquisado por diversos psicólogos e que se cria um estilo pessoal quando se expressa princípios e uma filosofia de vida, com personalidade e estética. Usei, também, a definição de beleza do James Joyce em Um Retrato do Artista quando Jovem: para ter beleza é preciso revelar uma essência autêntica com harmonia. Ou seja, a imagem pessoal precisa expressar qualidades com harmonia e estética.

O método que criei foi baseado na associação que fiz entre os princípios da linguagem visual e teorias e conhecimentos das áreas da psicologia, neurobiologia, antropologia e sociologia. A consultoria é baseada em técnicas de indução à reflexão, usadas para estimular a criatividade e o autoconhecimento.

Estudo a linguagem visual há mais de 40 anos, desde quando morei em Londres e estava desenvolvendo meu trabalho como artista plástico. Durante quatro anos desenhei 10 horas por dia, buscando dominar os fundamentos do desenho e da criação de uma imagem. Em 1973, conheci a teoria dos símbolos arquetípicos de Carl Jung. Ele demonstrou que há certos símbolos que têm o mesmo significado para todas as pessoas, de qualquer cultura ou período. Percebi que os símbolos mais simples e mais fortes são os formatos geométricos, sobre os quais se compõe todas as imagens. Isso implica que toda imagem contém na estrutura de sua composição um símbolo que determina o significado da mesma. Também raciocinei que as linhas que formam essas estruturas também são arquetípicas.

Com esse conhecimento é possível fazer a leitura da qualquer imagem, inclusive do rosto, e saber o que expressa. Isso permite ler o temperamento de uma pessoa a partir da análise das linhas e formas contidas na face.

Quando li Inteligência Emocional de Daniel Goleman, fiquei intrigado com a pesquisa, que ele mencionava, de Joseph LeDoux, sobre o cérebro emocional. LeDoux é um neurocientista, professor na Universidade de Nova Iorque, onde pesquisa como o cérebro cria emoções. Seu trabalho indica que símbolos arquetípicos são instantaneamente reconhecidos pelo tálamo e disparam os sistemas neurais na área límbica do cérebro. Em seguida, a pessoa tem reações físicas e emocionais. Isso explica porque reagimos emocionalmente às imagens e porque elas afetam nosso bem-estar, nossos relacionamentos e nosso senso de identidade.

Tudo isso foi colocado no trabalho que fiz para o Senac, indo muito além do que foi inicialmente proposto e modificou o projeto do curso. Vera Lucia Marques resolveu apresentar o trabalho à Editora Senac SP, que aceitou publicá-lo. O livro foi lançado em novembro de 2003.

Ao mesmo tempo, o Centro de Tecnologia de Beleza foi desmantelado e o projeto do curso abandonado. Só foi retomado em 2008. Fui convidado, por Richard Metairon, Presidente da Intercoiffure Brasil, para ministrar um workshop na Hair Brasil 2004, que foi um grande sucesso. O livro chamou a atenção de várias pessoas influentes do mercado da beleza e da imprensa e logo minha esposa Sonia, que cuida, desde o início, do marketing e da divulgação desse trabalho, percebeu que seria necessário organizar cursos do Visagismo com esse novo conceito.

O Centro de Visagismo Philip Hallawell, através do qual já realizamos mais de 35 cursos, workshops em todas as edições da Hair Brasil e Beauty Fair, centenas de palestras, workshops, e shows em outras feiras e congressos de beleza, de medicina estética e de odontologia, foi criado em 2005. Já concedi mais de 300 entrevistas para revistas, jornais e programas de televisão.

A partir de 2006, diversas Universidades criaram cursos baseados no conceito de Visagismo Philip Hallawell e, recentemente, iniciaram pesquisas científicas usando seu método, nas áreas de estética e de psicologia.

O que começou como uma simples apostila para um curso para cabeleireiros e maquiadores, tornou-se algo muito maior. Dois livros foram publicados, com cerca de 30 mil exemplares vendidos. O Visagismo Philip Hallawell está sendo aplicado em todas as áreas de criação da imagem pessoal: cabelo, maquiagem, odontologia, medicina estética, cirurgia plástica e moda. O método está sendo aplicado nas artes visuais, artes aplicadas, arquitetura e no design, em empresas, nas divisões de RH, vendas e na gestão de pessoal, e, até, na medicina. Começou a atrair pessoas no exterior. É uma trajetória que está somente no início que, a cada dia, me anima e me entusiasma mais e que quero compartilhar com muito mais pessoas!

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