Uma Questão de Estilo

Todos as pesquisas sobre tendências indicam que as duas maiores são a despadronização e a customização, que é a personalização de produtos e serviços. Isso significa que o profissional de beleza precisa saber como criar um estilo personalizado para cada um dos seus clientes e estar atento ao perigo de cair na armadilha de criar imagens padronizadas, baseadas nas "tendências" de moda.

O Visagismo é justamente a arte de criar um estilo pessoal e o domínio dos seus conceitos e técnicas possibilita a customização da imagem de cada cliente.

Ter estilo no Ocidente, antigamente, era privilégio de um seleto número de pessoas, que formava a classe aristocrática. Quase todas as outras pessoas viviam sem nenhum senso de estilo. Não tinham estilo nas suas imagens, roupas, utensílios, móveis ou casas, por exemplo. O estilo aristocrático, por outro lado, refletia os valores da nobreza, estabelecidos pelos gregos da antiqüidade: fineza, respeito, harmonia e um senso de responsabilidade social que os privilégios impõem. Era um estilo feudal e patriarcal, em que o nobre tinha o dever de cuidar dos seus súditos.

Aos poucos, porém, esses valores foram corrompidos, primeiro pela decadência da nobreza, a partir dos século XVII. Depois, com a criação da alta burguesia, durante a revolução industrial, esse estilo passou a ser uma manifestação de poder, sem princípios. Os nobres, que ainda viviam de acordo com os verdadeiros valores da nobreza, "esnobavam" essas pessoas. A palavra preconceituosa snob tem suas origens nas escolas particulares da Inglaterra, onde era costume colocar o título de nobreza ao lado do nome de cada aluno. Quando não havia título, colocava-se s.nob, uma abreviação do latim sine nobilitis, que significa "sem nobreza". Quando uma pessoa da classe média ascendente mostrava atitudes arrogantes e sem refinamento, chamavam-na de snob e a evitavam. Esnobavam-na. Todo esse processo é registrado na literatura européia por Voltaire, Balzac, Dickens, Thackeray, Austen, Brontë, e Mann, e outros autores. Muitas das suas obras foram transformadas em filmes.

Com conhecimento técnico, sabe em que ângulo cortar uma mecha para obter o efeito desejado, ou com que instrumento deve trabalhar. Sabe como aplicar uma tintura corretamente e como usar escovas. O maquilador sabe como aplicar os cosméticos, para criar efeitos diversos, e como utilizar uma pinça, por exemplo. No entanto, mesmo sabendo fazer tudo isso, o profissional não saberá estilizar um corte, definir uma intenção ou expressar-se através da cor e da luz, se não adquirir outros conhecimentos. O fazer e o idealizar são fases distintas e separadas do processo criativo.

As classes dominantes dos séculos XIX e XX aos poucos foram sendo compostas por uma maioria burguesa, ao mesmo tempo em que se formava uma classe média e um proletariado, ambos com educação e poder econômico, que lhes davam direito a um estilo. Mas esses precisavam ser novos, que refletiam os pensamentos e valores que estavam em oposição ao pensamento da classe dominante conservadora. A mulher buscava se libertar do domínio masculino e estabelecer sua independência e minorias étnicas buscavam se valorizar. Um grande número de crenças, filosofias de vida e posicionamentos sociais surgiram no século XX: religiões diversas, liberalismo, socialismo, comunismo, anarquismo, os hippies, para citar alguns.

Pessoas começaram a manifestar seus valores na sua imagem, em oposição à classe dominante. Neste processo, foram sendo derrubados os padrões do estilo clássico conservador e uma multiplicidade de estilos se formou. Mas isso não quer dizer que a classe dominante de hoje não preservou um estilo, que continua sendo uma exibição de poder, ganho por privilégio ou riqueza econômica, mas sem outros valores. É um estilo que só pode ser comprado, baseado no luxo, na exclusividade, na associação a marcas de poder e à exibição de suas etiquetas, mas não pode ser individualizado ou personalizado, porque essas pessoas se submetem a um sistema totalitário em que o indivíduo é oprimido e massificado.

Um estilo pessoal só é possível quando a pessoa realmente tem valores e princípios próprios e um pensamento livre de padrões. Isso se aplica a qualquer pessoa, de qualquer classe, mesmo das dominantes. É preciso que ela saiba quem ela é e que tenha conteúdo. Vai refletir seu pensamento, seus valores, seu estilo de vida e sua personalidade. Assim, mesmo que seja semelhante a de outras pessoas e possa ser identificada com o estilo de um grupo de pessoas ("tribo"), será única - customizada a suas carcterísticas únicas.

Infelizmente, a grande maioria das pessoas que lida com imagens não tem esse conhecimento formal. Isso acontece porque raramente é ensinado nas escolas e faculdades. Antigamente era ensinado por meio do desenho, academicamente. As academias estabeleceram regras no uso da linguagem visual, o que limitava a criatividade, e as escolas modernas não souberam separar o conhecimento das regras, abandonando o ensino do desenho por completo desde 1960.

No visagismo aprende-se a linguagem visual e um conjunto de técnicas e procedimentos para poder ajudar as pessoas a refletir e a definir tudo isso e estabelecer uma intenção, na qual será baseado seu estilo. É um processo que a ajuda a cada um encontrar seu lugar - único - neste mundo e evitar que seja engolida pela massificação. E abre as portas para se expressar sua plenitude, com entusiasmo e criatividade.

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